Camará - Conjunto de Câmara da UFBA | Projeto "Música Baiana?"
Teatro Eva Herz, Salvador -- 16/12/11
A primeira coisa que você deve estar se perguntando é: “que diabos de título é esse?” Certamente a intenção do compositor com esse título não era comunicar algo, como quem dá um “bom dia” ou manda o filho ir comprar pão. Mas de qualquer maneira, o seu nome pode ficar pra depois.
Antes, vamos falar um pouco sobre a própria música.
Para compor
nav tirs nº 2, Paulo Rios Filho elegeu dois conjuntos de notas musicais como seu material básico e aplicou alguns procedimentos de
derivação sobre eles.
De um lado, uma entidade musical familiar (a
escala dórica) segue um caminho de autotransformação, numa viagem em direção à sua própria figura deformada – quando deixa de parecer familiar. Do outro, uma entidade musical da natureza (a
série harmônica) se artificializa à medida que se aproxima de um ponto no futuro (e vira uma
escala de tons inteiros).
Mas, no fim do trabalho do pedreiro, o material não importa tanto quanto a própria casa, que é a
forma da maneira como ela é
percebida.
Como você percebe essa música? Que imagens ela traz à sua cabeça?
nav tirs nekadus hibridus nº 2 é, segundo o compositor, o convívio de
duas viagens paralelas, que se cruzam e se distanciam, em seus diversos momentos.
Essa é uma
história cheia de intempéries; afinal são dois roteiros (que já carregam sub-roteiros dentro de si) com itinerários diferentes tendo que conviver dentro do mesmo mundo. É porrada pra lá, quebradeira pra cá, um grito aqui, um tapa acolá. No meio do caminho, porém, calha-nos deparar com paisagens repletas de
lirismo. Percebam como no meio da música o clima geral da história muda de face. A porção inicial e a final, por sua vez, guardam semelhanças entre si.
O nome da música quer dizer “nem puro, nem híbrido” em letão. O título tem a ver com a “modificação genética” sofrida tanto pela escala dórica quanto pela série harmônica de dó.
Mas será que já não eram elas próprias frutos de
outras modificações?
"
Neither pure nor hybrid." This is what the piece's title means in Latvian. The work is about imagining an
anti-world, where things are not things, and about the perception of a
trip or path taken by those who are natives and creators of this world, at the same time.
Firstly, a familiar musical entity (the
Dorian scale) goes on a path of
self-transformation, within a trip to your own deformed picture -- when it is not anymore familiar.
On the other hand, a nature's musical entity (the
harmonic series)
denaturalizes itself while it gets close to a point in the future, and becomes a
whole-tone scale. Both characters travel in the same direction, one of transformation, and their paths get mixed, interlaced, mopped and
rubbed to each other (they caress themselves as well).
Listen to it, once this other world can be only listened to. The
images they are by your own account.